terça-feira, 20 de agosto de 2013

ASSIM FALOU BENEDITO


Romance de Wind Rose e Diedra Roiz
Escrito entre Agosto de 2008  e Junho de 2013.
Postado de Agosto a Outubro de 2013. 
Farah por Wind Rose
Ana Clara por Diedra Roiz



ATENÇÃO: Os direitos autorais desta obra foram adquiridos pela Editora Vira Letra, que irá publicá-la em versão digital (ebook), por isso a história não está mais disponível na íntegra. 


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O: Os direitos autorais desta obra foram adquiridos pela Editora Vira Letra, que irá publicá-la em versão digital (ebook), por isso a história não está mais disponível na íntegra. 

Lembrando que... Copiar o texto e apenas mudar o nome das personagens e/ou detalhes da história não é fanfiction, muito menos adaptação, é plágio. E plágio é crime! Por favor, não façam isso, ok?





SINOPSE

Uma carioca e uma gaúcha... Mergulhadas em um embate de cultura e de egos... Tentam solucionar uma atração irresistível... Terá Benedito a palavra final?





MÚSICA QUE INSPIROU A HISTÓRIA:




O: Os direitos autorais desta obra foram adquiridos pela Editora Vira Letra, que irá publicá-la em versão impressa digital (ebook), por isso a história não está mais disponível na íntegra. 


CAPÍTULO 01

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A irrealidade das formas, o abstrato tomando-se visível pelas linhas disformes e ao mesmo tempo tão... Tão... Perfeitas. Vejo os passos incertos que seguem pelo caminho tortuoso e que se estende até o infinito abrindo-se em grandes galhos de uma árvore que se mostra frondosa e cujos frutos caem para as profundezas do inferno. O antagonismo da busca do paraíso que só existe no olhar de quem já viu o inferno. A dicotomia aparente da realidade. A ignorância que só é visível diante da descoberta.
 
Às vezes me sinto assim, buscando elucidar minha ignorância, mesmo quando não há nada a ser desvendado. Sei que cada dia que passa minha ignorância aumenta. A minha, e a dessa criatura sentada ao meu lado. Benedito...
Queria que ele gritasse, me xingasse ou em um acesso de insanidade se jogasse pela janela. Queria reação daquele corpo inerte, queria nele as manifestações da minha loucura, para depois acusá-lo de insano, mas sei que não vai fazer. Benedito não se mexe há anos. Continuaremos assim, ele inerte naquela cadeira e eu... Louca.
Passa das duas da manhã e enfim, consigo enviar o arquivo com todas as ilustrações que selecionei e que farão parte da exposição dos jovens surrealistas da atualidade do Estado.
Ao estender os braços para cima, senti todas as minhas articulações estalarem e ao mesmo tempo meu celular indicando o recebimento de uma mensagem.          
“Tu tá fedendo a mofo.” 
“Onde tu está?” 
Respondi e, em menos de um minuto, o retorno:
“Na zona. E tu?”
“No quarto ao lado.” - Continuei. 
Veio a resposta:
“Tu não ia gostar daqui.”

“Pq?”

Incentivei. Sabia que viria uma piadinha.

“Não tem múmia.”

Não resisti:

“Só viado.”  

Enquanto fechava o computador, o celular tocou, me assustando.

- Assustou o Bendito. Quase saiu correndo do museu.

- Mais fácil ele sair do que tu.

- O que tu quer?

- Consegui as entradas para a estréia da peça amanhã.

- Sabia que não ia me decepcionar.

- Me deve essa. Passo na sua casa, amanhã às sete.

- Te espero, saio do museu às seis. Beijo.

- Farah...

- O que?

- Vai pra casa.



Segui o conselho de Edgar, meu amigo de todas as horas. Olhei para Benedito e consertei:

- Ok, ok... Tu também. - Peguei minha bolsa, que estava no colo de Benedito. - Boa noite. - Falei para ele, que mantinha seus olhos de vidro fixos em um ponto na minha mesa. - Tuas faixas estão desenrolando, Benedito. Não quero te ver pelado na minha frente. - Arrumei a faixa do pescoço que caia pela lateral do corpo do modelo de múmia. Um tapinha no ombro... – Tchau, amigo. Amanhã nos vemos.  



No estacionamento, no subsolo do museu, apenas o guarda cochilando na cadeira. Assustou-se quando me viu:

- Dona Farah... Desculpa.

- Boa noite, Ernesto.



No meu carro, um bilhete no pára-brisa:

“Se bem te conheço, deve ser perto das três da manhã. Se quiser uma cama quente, companhia agradável, e um café da manhã especial, sabe onde encontrar. Marina.”

Um suspiro acompanhou meu olhar para o relógio: duas e trinta. Concluí sorrindo: “Como é ruim ser previsível...”

Acelerei em direção àquela proposta irrecusável.



***



Tem momentos estranhos, muito estranhos na vida da gente. Quando todas as certezas e estruturas que levamos anos para criar de repente caem por terra. Desintegram-se como cartas mal equilibradas ou castelos de areia. Em momentos como esse, existem duas saídas: olhar para dentro ou simplesmente... Não olhar. Eu estava vivendo a segunda opção. Não queria nem podia parar para refletir. Preferia não pensar.

Estava nesse ritmo há mais de dois anos. Trabalhando, bebendo, fumando e trepando muito mais do que supostamente poderia aguentar. Mas duas coisas me moviam: uma lacuna profunda e a necessidade vital de me anestesiar.

Atirar-me de braços abertos sobre ela - era a minha forma de derrotar a insanidade. Na verdade, pessoas como eu normalmente andam com a loucura lado a lado. Aos beijos, se for necessário. Faz parte do maligno pacto que fazemos ao abrir mão de toda e qualquer forma de vida cotidiana, banal e pacata.

Mas nenhuma amargura acompanha esses pensamentos. Apenas a consciência de que existem escolhas, cada uma com sua parcela de vantagens e desvantagens. Eu havia feito a minha. Sem me arrepender, nem hesitar. Sabendo que era a única possível. Qualquer outra me faria sufocar.

Estava gelatinando¹ o último refletor, e me preparando para começar afinar a luz, e gravar a mesa, quando ouvi alguém me chamar:

- Ana?

Olhei para baixo. Parada no meio do palco, segurando entre as mãos algo que parecia um copo de plástico, Cássia, a assistente de produção do espetáculo. Com o sorriso sedutor de sempre ao completar:

- Trouxe um café pra você, linda.

Olhei para o relógio de pulso. Duas e meia da manhã. Pra quem ia passar o resto da noite montando a luz do espetáculo como eu ia ficar, café era irrecusável.

Coloquei os pés nas laterais, por fora da escada, e desci deslizando. Muito mais fácil do que usar os degraus. E impunha aos outros técnicos do teatro - sempre homens - o respeito necessário. Na verdade o que acontecia - e eu já estava habituada - era que a minha aparência não ajudava. Parecia feminina demais, delicada demais para uma profissão em que pouquíssimas mulheres se aventuravam. Já estava mais do que acostumada aos olhares de ironia e descrédito... Que terminavam assim que eu começava a trabalhar.

- Não entendo porque você faz questão de subir com esses refletores super pesados enquanto seu assistente – apontou para Ricardo, o rapazinho que era meu estagiário - fica aqui embaixo anotando. Não deveria ser o contrário?

Realmente, era o que todos esperavam. Exatamente por isso não era como eu trabalhava:

- Eu sou mais rápida.

E era verdade. Afinal de contas, o rapaz ainda estava aprendendo, quase não entendia nada. Era mais fácil ele ficar anotando os canais onde eu plugava cada refletor.

Com um suspiro de reprovação, ratificado por um leve balançar de cabeça de um lado para o outro, Cássia me estendeu o copo de café, falando:

- Bom, você é que sabe.

O café não estava muito quente - ainda bem, porque eu não suportava comer nem beber nada quente demais - por isso nem precisei esperar esfriar. Tomei rapidamente, em grandes goladas. Entre tragadas apressadas num cigarro que ela solicitamente acendeu e estendeu para mim.

- Devagar. Quero te aproveitar mais... - ela me lançou um olhar absolutamente mal intencionado... Que fingi ignorar:

- Preciso voltar ao trabalho.

Depois de uma última tragada, atirei o cigarro no copo onde tinha deixado um restinho de café exatamente para isso. Entreguei o copo para ela, agradeci, e comecei a subir na escada. Sabendo perfeitamente que Cássia deveria estar me olhando no mínimo irritada. Pouco me importava. Não tinha nem queria ter o que quer que fosse com ela. Nunca havia prometido nada. Queria deixar bem claro que não ia passar do que acontecera há algumas noites atrás: um único momento enlouquecido. Sexo puro, mais nada. Sem sentimento, envolvimento, nem direito a “revival”.

Fazia mais de dois anos que eu não queria nem me relacionava emocionalmente com ninguém. Não depois do término do meu último namoro, com minha ex exigindo exatamente o que eu nunca tinha sentido vontade de dar: o próximo passo.  Além disso, eu seguia à risca o ditado popular: “onde se ganha o pão não se come a carne”. Ou seja: jamais com alguém do meu trabalho. Mas naquela noite, sabe-se lá por que razão atroz... Talvez o excesso de alcóol, solidão, carência, ausência, necessidade, ou uma mistura fatídica desse todo... O fato é que...  Não havia conseguido resistir aos encantos - que não eram poucos - da morena sensual. Mais uma das minhas muitas burradas. Agora só me restava colocar uma pedra em cima. E ponto.



Já estava quase terminando de afinar a luz quando Ricardo, na cabine, acendeu a geral. Totalmente desafinada, era só o que me faltava...

Normalmente a geral e a contra luz do teatro já ficavam prontas e afinadas, a única coisa que eu precisava fazer era gelatinar. Chamei:

- Jamanta?

Jamanta era o técnico do teatro. O apelido não podia ser mais perfeito, o cara era imenso, um verdadeiro “armário”.

- A geral tá vazando nas laterais.

Ele deu de ombros, com aquele jeito lento e despreocupado de quem não é perfeccionista obsessivo-compulsiva como eu. Depois tentou explicar:

- Não tem ponte, tem que subir de escada, e é muito alto.

Passei a mão pelo pescoço e suspirei, exasperada. Maldizendo-me mentalmente por não conseguir simplesmente ignorar e me poupar do trabalho a mais:

- Pega a escada. Vou afinar.

Jamanta me fitou de olhos arregalados, mas fez o que pedi. Firmou a parte de cima da escada na vara onde os refletores estavam pendurados, encostou os pés entre as cadeiras da platéia e ficou apoiando para que não escorregasse.

Olhei para cima, calculando: uns doze metros mais ou menos - um prédio de três andares. Altura nunca havia sido problema para mim. Mais do que acostumada, eu adorava. Quando criança vivia subindo nas coisas, a ponto dos meus pais implicarem comigo, dizendo que numa vida anterior eu deveria ter sido uma macaca.

- Eu falei que era alto.

Jamanta interpretou mal meu momento de reflexão. Sorri para o homenzarrão, que pelo visto, sofria de algum tipo de acrofobia. Dei dois tapinhas amigáveis no ombro dele antes de exclamar:

- Jamanta, o dia que eu tiver problema com altura eu me aposento, pode deixar.

E subi rapidamente, sem pestanejar.



Depois de afinar todos os refletores, fui para a cabine, onde Ricardo já havia marcado com fita crepe todos os canais da mesa. Só faltava gravar. Mas isso só com os atores, no ensaio de luz.

Apaguei o cigarro. Olhei para o relógio: cinco da manhã.

- A que horas tá marcado o ensaio?

Ricardo conferiu no meio dos milhares de papéis que ele tinha num fichário:

- Onze.

Espreguicei, alongando os braços e a coluna, antes de falar:

- Perfeito. Vou pro hotel descansar. Dez pras onze tô de volta. Você vem?

Ricardo respondeu, já pegando os fones do MP3:

- Não. Vou tomar um café, e ficar por aqui. Se eu dormir não acordo mais.

Novatos... Não dava um mês para que ele aprendesse a aproveitar qualquer intervalo. Assim que as noites dormindo se tornassem raras, e fosse rotina passar noites em claro.

Me despedi de Jamanta e peguei um táxi até o hotel. Entrei no quarto onde os meninos – o cenógrafo e o coreógrafo para ser mais exata – ainda estavam dormindo. Sempre optava por dividir o quarto - quando era preciso - com homens gays, para evitar situações desagradáveis.

Não que eu me achasse irresistível ou algo do gênero, mas... Já havia sido surpreendida mais de uma vez por investidas indesejadas de homens, lésbicas e até de mulheres hetero movidas pela curiosidade.

Verdade seja dita, tudo bem, eu estava mesmo numa fase totalmente “pegadora”, mas mantinha alguns critérios de seletividade. Primeiro porque não tinha encontrado meu corpo no lixo. Segundo porque detestava ser cantada.

O que eu gostava mesmo era de caçar, especialmente as que se faziam de difíceis, as que resistiam e me obrigavam a ter um pouco de trabalho. Afinal, meu prazer se resumia ao antes e ao durante, depois do sexo eu não conseguia mais ver a graça. Não era uma opção, era... O suspiro veio involuntário. Ciente do quanto a minha eterna e mórbida incapacidade de envolvimento maior tinha sido responsável por todos os meus términos de relacionamentos. Uma vida a duas... Não que eu fugisse ou tivesse medo, mas... Talvez não existisse mulher capaz de me fazer querer mais, desejar mais... Ou talvez... Eu apenas não fosse capaz. Era mais fácil aceitar minha vocação para ser solitária... E parar de acumular fracassos e ex namoradas ressentidas e magoadas.

Acertei o despertador para as 10h. Tomei um banho rápido, me vesti inteira. Tinha esse hábito quando ia ter poucas horas de sono: dormir vestida para já estar pronta quando levantasse. Me atirei na cama, morta de cansaço. E em questão de segundos não estava mais acordada.



Meu dia transcorreu sem grandes surpresas. De uma forma até rotineira. O ensaio acabou por volta das 15h. Almocei com o pessoal da equipe técnica num restaurante perto do hotel - com Cássia se atirando para cima de mim, e eu pensando:

“Será possível? Essa mulher não se toca?”

Dormi o restinho da tarde. Acordei por volta das 19h. Tomei banho, jantei sozinha - nem um pouco a fim de enfrentar novamente o assédio da morena - e fui para o teatro. Direto para a cabine, onde fiquei fumando e jogando conversa fora com Jamanta e Ricardo.

Até levantar, me espreguiçando, e constatar:

- Preciso de um café.



***



O interfone anunciava meu atraso, corri e pedi para Edgar esperar alguns minutos, o que fez. Porém, reclamou assim que abri a porta do carro:

- Falei que passava às sete.

- Falei que saio do museu às seis.

Ele sorriu, no momento que sentei no assento ao lado, e sentenciou:

- Você está um arraso, loira. Vai matar ou morrer.

- Estou indo ao teatro, Edgar, não à caça.

- Não, minha linda loira platinada... Deixou de ser caça há tempo, agora estamos em guerra.

Riu das próprias palavras. Eu também.

- Acelera. Estamos atrasados.

- A culpa é sua.



Escolhi um CD e no caminho ouvi todas as fases que Edgar precisou vencer para conseguir os ingressos, pois estavam esgotados. Desde que soube que esse espetáculo entraria em cartaz em Porto Alegre não dei sossego a ele, que por sua vez deixou para comprar nos últimos dias e consequentemente não conseguiu. Fiquei furiosa e não dei trégua, até que ele conseguiu com sua prima, que descobriu pela namorada que tem um tio que trabalha com o Juca, cujo namorado perdeu a avó e os dois precisaram viajar para o interior e não poderiam assistir à peça...

Tentava me explicar esse parentesco absurdo que deixei de entender quando chegou no Juca ou no tio do Juca, sei lá, quando entramos em um dos estacionamentos do teatro.

- Edgar... Quer saber? Para! Não me conta mais nada.

Saí do carro com ele atrás tentando me explicar a árvore genealógica do Juca.

Assim que entramos, localizamos nossos lugares, mas percebemos que haveria um pequeno atraso, o que era normal. Aproveitamos para ir ao café do teatro no pavimento inferior. O teatro estava lotado e o acesso às escadas entulhado de gente.

- Vai na frente, loira. Pra ti abrem caminho.

Segurei a mão dele e fui pedindo licença. Ele soltou minha mão e fez sinal para que eu continuasse. Viria atrás.

Prossegui, tentando alcançar as escadas, olhando para o chão, evitando pisar em alguém com o salto da minha bota... Ou tropeçar no tapete.

- Odeio escadas... - Falei para mim mesma

- Quem sabe desistimos? - Ouvi ele dizer lá atrás.

- Capaz! Jamais!  - Respondi.

Coloquei a mão no corrimão e o pé no primeiro degrau. Senti-me segura e levantei os olhos. Abaixo de mim, no primeiro degrau, fazendo movimento contrário... Ela subia.

Com a mão no corrimão, o pé no degrau, levantou os olhos em minha direção.

E eu desci... Presa naquele olhar.

Por alguns momentos, nossos movimentos sincronizaram: Ela subia... Eu descia...

Nunca gostei de escadas, e agora queria passar o resto de minha vida descendo aquela.

Degrau a degrau, ela os vencia, eu os perdia...

Cada movimento me levava em direção aquele olhar... Mais um pouco... Isso...

Castanhos, não! Marrons. Expressivos, profundos...

Não olhei mais para o chão, para o corrimão, não olhei para mais nada que não fossem aqueles olhos que subiam, enquanto eu... Descia.

Cada passo dela, sabia que era, também, um meu... Os degraus sumiram, entre nós somente a dúvida: quem solta o corrimão primeiro? Quem dá o primeiro passo para o próximo degrau? Eu soltei, ela também. Fizemos o mesmo movimento para o mesmo lado, os cabelos negros balançaram na minha frente. Voltei e segurei o corrimão.

Ela entendeu, passou... Eu fiquei.

Ela subiu... Eu desci.

Edgar me alcançou, colocou a mão em meus ombros. Olhei para cima, tentei em vão localizá-la, não consegui. Porém, fiquei com uma certeza. Jamais esqueceria aquela escada e seus degraus mágicos, pois desci sem tocá-los.



***



- Merda!

A exclamação saiu sem querer, quando o líquido terrivelmente quente me queimou a língua. O resultado foi um sorrisinho da garota atrás do balcão. Enquanto esperava o café esfriar, troquei algumas palavras com ela, com uma simpatia despreocupada e sem maiores pretensões. Apenas para matar o tempo.  

Acenei para ela em despedida, antes de sair em direção ao teatro e à cabine de som. Coloquei a mão no corrimão da escada, pronta para subir correndo, apressada, os olhos fixos nos degraus, como sempre fazia.

Inexplicavelmente - algum tipo de força desconhecida? Uma comprovação explícita de que o inevitável existe? Ou simplesmente sem motivos nem razões palpáveis, como tudo que é capaz de alterar nosso destino? - ergui os olhos... E a vi.

Vindo em minha direção, como se nossos passos nos levassem juntas a algum tipo de sintonia.

Escadas...

Faziam parte, tinham uma importância fundamental em minha vida. Mas aquela era a primeira vez que eu realmente tomava consciência disso. No momento em que aquele olhar intenso, antropofagicamente azul, me engolia. Mariposa rodopiando, caminhando sem rumo - Eu descia? Eu subia? Eu já não sabia... - Em torno do facho de luz que ela emitia...

E então... Os degraus entre nós sumiram, e ela parou na minha frente, na superioridade de estar um patamar acima... Me obrigando a erguer a cabeça para  olhar. Embevecida, paralisada pela imagem quase etérea de tão linda.

Soltamos o corrimão ao mesmo tempo. Nos movemos para o lado, também em uníssono. Nossos olhos se provaram, por um segundo profundamente destituído de sentido.

Ela voltou e segurou o corrimão, me fazendo entender que fosse o que fosse aquele esbarrar de percepções fugidias, não passava de um instante transitório e finito.

Passei por ela rapidamente. Apressada em voltar à realidade, ao alívio de respirar sensações que eu conhecia.

Foi assim.

Ela ficou. E eu fugi.



De volta à cabine...

A imagem dela. Era só o que eu via. A ponto dos meus olhos perdidos se manterem calados, esquecidos de onde estavam e para que serviam.

Alguns atores estavam se aquecendo no palco. De repente, um deles chutou um dos refletores de chão. Sem querer, é claro. Mas o meu:

- Puta que pariu!

Foi inevitável. Ainda bem que o coitado não ouviu. Ficou se desculpando, absolutamente sem graça. Tentando olhar para a cabine sem enxergar, por causa da luz na cara. Falei para Ricardo:

- Deixa comigo. Vou lá.

Desci, atravessei a platéia, subi no palco. Me ajoelhei em frente ao PC². Felizmente não estava quebrado. Gritei:

- Acende, Ricardo! - Eu estava impaciente, irritada. O tempo que ele demorou pareceu uma eternidade. Tanto que gritei: - Chão vermelho 12, Ricardo!

Percebendo que eu não estava para brincadeira, ele foi rápido. Afinei o refletor na minha frente. E percebi que não era o único desafinado.

- Malditos atores!

Deixei escapar para mim mesma, bem baixo. Estava começando a mexer nos outros quando Cássia apareceu:

- Preciso abrir, Ana!

Suspirei antes de responder:

- Tá. Fecha a cortina. Quando eu terminar passo por fora. Avisa ao Ricardo.

Ela concordou com a cabeça. Talvez assustada com meu tom de voz absolutamente mal humorado.

As cortinas foram fechadas. O barulho do público entrando chegou aos meus ouvidos, me fazendo trabalhar rápido. Levantei, limpei a mão nas calças. Avisei aos atores que estavam por perto da forma mais gentil que pude:

- Cuidado com os refletores.

Pensei: “Caralho...”

Ricardo - em sua inexperiência e falta de atenção total - havia deixado os refletores de chão ligados. Ou seja: eu precisava chegar à cabine antes de começar o espetáculo.

Passei pela porta que liga o palco ao corredor do teatro correndo. Cheguei na entrada da platéia, onde o bilheteiro recolhia os ingressos. Não consegui falar com ele de imediato. Meus olhos grudaram na mulher que estava me impedindo de passar: loira, alta, cabelos lisos cortados deixando à mostra a nuca e o pescoço. Interessante, no mínimo...

Afastei a idéia rapidamente. Não tinha tempo para aquele tipo de pensamento. Não naquele momento. Falei apressada, deixando a educação completamente de lado:

- Será que você pode sair da minha frente?

A mulher se virou e dois olhos absurdamente azuis me fuzilaram. Na mesma hora fiquei toda arrepiada, por que... Era ela. A mesma loira de olhar celeste da escada.


Notas:
¹Gelatinar = colocar gelatina no refletor. Gelatina é o nome popular do filtro plástico colorido usado nos refletores para iluminação, é o que dá cor à luz.



²PC = Refletor Plano Convexo - Refletor de ótica simples, com uma lente lapidada em plano convexo, obtendo-se assim controle do facho de luz. Usado para se obter focos mais nítidos e sombras duras, usado para pequenas e médias distâncias.




CONTINUA... 

postado originalmente em 20 de Agosto de 2013 às 15:38


O: Os direitos autorais desta obra foram adquiridos pela Editora Vira Letra, que irá publicá-la em versão digital (ebook), por isso a história não está mais disponível na íntegra. 
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